Quando uma carreta tomba, sai da pista ou se envolve em colisão, o trabalho não termina com o socorro às vítimas e a retirada dos veículos. Toneladas de mercadorias podem ficar espalhadas pela rodovia, dentro de compartimentos destruídos ou até às margens da pista. É nesse cenário que começa o trabalho de Wagner Dagher, de 42 anos.
Perito de carga, comissário de avarias e regulador de sinistros (ocorrências), Wagner atua desde 2021 na recuperação de mercadorias transportadas por caminhões envolvidos em acidentes. Acionado pelas seguradoras, ele avalia o que pode ser recuperado, calcula os prejuízos e acompanha a retirada da carga. Ele conversou com o Campo Grande News durante um desses atendimentos.
“Eu sou responsável por recuperar a carga que está sendo transportada de um Estado para outro ou de uma cidade para outra. A maioria das cargas tem seguro e, quando acontece algum sinistro, eles enviam um perito para fazer o resgate, a recuperação, o relatório de prejuízo e o inventário dos salvados”, explica.
Na prática, o trabalho exige chegar ao local do acidente, avaliar as condições da mercadoria e separar o que ainda pode ser aproveitado. O levantamento também serve para dimensionar as perdas e auxiliar na regulação do seguro. Dependendo da ocorrência, a atuação contribui ainda para retirar a carga da pista e liberar o trânsito com segurança.
A rotina faz Wagner acompanhar de perto tombamentos, colisões e saídas de pista nas rodovias de Mato Grosso do Sul. Segundo ele, há semanas em que é chamado para três ocorrências. “Acidentes nas rodovias aqui no Estado, posso dizer que praticamente todos os dias têm. Tem semana em que consigo atender três eventos e outras em que acontece um só”, relata.
Entre as situações encontradas estão carretas que tombam com toda a mercadoria, caminhões que deixam a pista e ficam atolados e colisões envolvendo veículos de carga e automóveis. Cada cenário exige uma estratégia diferente para retirar e preservar o que restou da carga.
Para Wagner, dois fatores aparecem com frequência nos atendimentos: as condições das rodovias e a imprudência dos motoristas. Ele cita ultrapassagens em locais proibidos e o desrespeito à sinalização como condutas que aumentam o risco de acidentes. “A imprudência briga pelo primeiro lugar com as condições da via. São ultrapassagens indevidas e situações em que a sinalização não é respeitada”, afirma.
Alguns atendimentos também ficam marcados pela gravidade. Wagner lembra de acidente ocorrido em 2023, em Nova Alvorada do Sul, envolvendo carreta, caminhão-baú e carro. Duas pessoas morreram. Para o perito, lidar com mortes e feridos é a parte mais difícil de um trabalho voltado à recuperação de bens.
Carreta ficou destruída após acidente seguido de incêndio (Foto: Juliano Almeida)
Acidentes – Acidentes envolvendo veículos de carga deixaram 18 mortos e 145 feridos nas rodovias federais de Mato Grosso do Sul em 2025, segundo dados da PRF (Polícia Rodoviária Federal). De janeiro a julho deste ano, foram oito mortes e 87 feridos em ocorrências desse tipo. Em todo o ano passado, foram registrados 471 acidentes com veículos de carga. De janeiro a julho deste ano, a PRF registrou 285 ocorrências.
Os dados de 2026 abrangem apenas os sete primeiros meses do ano e, por isso, não podem ser comparados diretamente com o total de 2025. Ainda assim, a média mensal passou de cerca de 39 acidentes no ano passado para aproximadamente 41 neste ano.
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