Saneamento: debaixo da terra, o investimento que pode valorizar imóveis em quase R$ 1 bilhão

À primeira vista, o valor de uma casa parece estar no tamanho do terreno, na localização ou no acabamento. Mas há um fator que nem sempre aparece na fachada e que pode fazer diferença no momento da avaliação de um imóvel: o saneamento básico.

Em Mato Grosso do Sul, essa relação tem dimensão econômica expressiva. O saneamento básico pode valorizar os imóveis em R$ 981,358 milhões até 2031, segundo o estudo Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento no Mato Grosso do Sul, lançado pelo Instituto Trata Brasil. O montante equivale a aproximadamente R$ 196,271 milhões por ano.

“Quando temos acesso pleno ao saneamento, a água chega 24 horas por dia. O esgoto coletado e tratado vai despoluir os rios, vai trazer uma melhor qualidade de vida para a população. Então, esse ganho é de quase 1 bilhão de valorização imobiliária”, pontuou a presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, em entrevista exclusiva ao Campo Grande News.

Presidente do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, dando entrevista ao Campo Grande News (Foto: Paulo Francis)
Em nível nacional, o Instituto Trata Brasil indica que imóveis localizados em áreas com rede de tratamento de esgoto podem ter valorização de até 14% em comparação àqueles que não têm o serviço.

O conjunto dos impactos econômicos e sociais relacionados à expansão do saneamento pode resultar em um ganho de produtividade estimado em R$ 8 bilhões para a população.

Ainda segundo o Instituto Trata Brasil, estão previstos investimentos de R$ 5,15 bilhões até 2031, com retorno líquido estimado em R$ 16,1 bilhões.

O Estado já apresenta um nível de investimento superior à média nacional. Em Mato Grosso do Sul, são aplicados R$ 207 por habitante ao ano, enquanto a média brasileira é de R$ 137. Em Campo Grande, o valor chega a R$ 301 por habitante.

A relação entre investimento e retorno também chama a atenção. Para cada R$ 1 investido em saneamento no Estado, o retorno econômico e social estimado é de R$ 5,90, acima da média nacional, de R$ 4,10.

A Águas Guariroba, responsável pelos serviços de água e esgotamento sanitário na Capital, tem ampliado a cobertura da rede coletora de esgoto, que já alcança 95% da cidade. A meta é alcançar 98% de cobertura até 2028.

Em 2026, a soma das novas redes implantadas alcança quase 200 quilômetros, beneficiando 20 mil famílias e quase 60 mil pessoas, de bairros como: Aero Rancho, Jardim Batistão, Cabreúva, Centenário, Nova Campo Grande, Nova Lima, Parati, Rita Vieira, Tijuca, Tiradentes e Universitário.

Neste ano também ocorreu a construção da ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) Botas, a perfuração de um novo poço nas Moreninhas, a implantação de um reservatório na região do Imbirussu, a substituição de seis reservatórios e a modernização de redes de distribuição de água. Além disso, o planejamento também contempla mais de 122 mil metros quadrados de reposição asfáltica.

Conforme o diretor-presidente da Águas Guariroba e da Ambiental MS Pantanal, Gabriel Buim, todo esse conjunto de fatores é fundamental para criar condições favoráveis ao crescimento das cidades e à valorização dos imóveis.

“O saneamento básico é um dos fatores que contribuem para a valorização imobiliária e para o desenvolvimento urbano. A disponibilidade de água tratada e de infraestrutura de coleta e tratamento de esgoto proporciona mais saúde, qualidade de vida, segurança sanitária e melhores condições de ocupação dos imóveis”, pontuou.

As regiões atendidas por esses serviços essenciais apresentam melhores condições para receber novos empreendimentos, favorecendo o crescimento residencial e comercial.

“A ampliação da infraestrutura de saneamento favorece o desenvolvimento de novos empreendimentos residenciais e comerciais, contribui para a expansão ordenada da cidade e torna as regiões mais preparadas para receber novos moradores e investimentos”, completou.

Ao abordar a importância de preparar a infraestrutura para acompanhar a expansão urbana, Buim reforça que o planejamento deve considerar tanto as necessidades atuais quanto as demandas futuras das cidades.

“Com a ampliação antecipada da infraestrutura, é possível preparar novas áreas para receber ligações domiciliares, reduzir limitações ao desenvolvimento imobiliário e ampliar os benefícios do saneamento para a população”, ressaltou.

Infraestrutura que valoriza – A relação entre infraestrutura sanitária e valorização imobiliária também aparece na experiência de quem vive nos bairros de Campo Grande. Aos 64 anos, o construtor civil Ronildo Dutra conhece de perto as mudanças que uma casa pode atravessar ao longo do tempo.

Morador da Avenida Marajoara, no bairro Centro-Oeste, ele vive com a esposa em uma residência simples, com sala, cozinha, banheiro e dois quartos. O quintal amplo abriga materiais de construção, como areia, tijolos e treliças, que indicam a continuidade dos trabalhos de reforma.

Além das melhorias na casa, Ronildo também associa o saneamento ao preço de sua residência. Na percepção dele, o acesso aos serviços contribuiu para que a propriedade alcançasse um valor muito superior ao que foi pago no passado.

“Valoriza muito, é muito importante. Isso é essencial. Eu creio que hoje uma casa dessa aqui, humilde, deve valer 400 mil reais por ter esses benefícios. Antigamente pagou na faixa de 150 mil. Se não tivesse saneamento, nem valor ia ter. É uma coisa que precisa, é essencial, para a saúde, para tudo. Isso é um benefício para o corpo do ser humano”, enfatizou.

Atualmente de licença após passar por uma cirurgia, Ronildo aproveita o período de recuperação para cuidar da própria casa. Entre as melhorias realizadas está a construção do muro, uma intervenção que contribui para a conservação do local.

Na manhã de quarta-feira, Ronildo estava em frente à residência recolhendo as folhas que caíam de uma árvore. No quintal, organizava os materiais usados na obra. O cuidado com o espaço faz parte de uma rotina de quem conhece o trabalho da construção civil.

O dia começa cedo. Às 4h, ele já está de pé, e uma das primeiras coisas que faz é tomar um copo de água antes de preparar o café.

“A gente que trabalha nessa profissão levanta cedo para fazer alguma coisa. Vou tomar café, tomar mate e vou agilizar a limpeza de quintal, agora que estou em casa”, descreveu.

Para ele, contar com água encanada e rede de esgoto é parte indispensável das condições de moradia. A percepção não se limita à própria residência, mas se estende às exigências que, na avaliação dele, devem valer para diferentes tipos de propriedade.

“A diferença de ter saneamento é muito grande, é essencial, são coisas que dentro de um bairro, dentro de uma casa tem que ter. Hoje em dia até sítio tem que ter água encanada, rede de esgoto. Aqui tem tudo, graças a Deus”, pontuou.

Esgoto e água tratada como requisito de moradia – A vice-presidente do Creci-MS (Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Mato Grosso do Sul), Simone Leal, explica que a presença da rede coletora pode produzir ganhos mensuráveis, especialmente em bairros que antes dependiam de fossas ou de soluções sanitárias precárias.

“O saneamento básico valoriza imóveis de forma mensurável, sobretudo quando a rede de esgoto chega a bairros antes atendidos por fossas ou soluções precárias. O bairro pode ter rede disponível, mas a valorização só se consolida quando as casas fazem a ligação.”

Conforme dados repassados pelo Creci-MS, a referência local da Câmara de Valores Imobiliários de Mato Grosso do Sul estima um ganho de 5% a 10% na edificação após a instalação da rede e a ligação do imóvel.

A valorização, no entanto, não acontece necessariamente de uma só vez. De acordo com ela, costuma ocorrer em três momentos.

O primeiro é o anúncio do investimento e do projeto, quando surge uma expectativa de melhoria que pode influenciar a percepção do mercado, embora ainda seja volátil. O segundo corresponde à execução das obras, fase em que a valorização pode ocorrer gradualmente, sobretudo quando há recomposição adequada das vias e melhorias na drenagem.

O terceiro momento é a ligação efetiva do imóvel à rede coletora, quando o proprietário passa a contar com o serviço e deixa de depender exclusivamente de uma solução individual.

É nessa etapa que, conforme Simone, o ganho tende a ser maior. “É o momento de maior ganho, porque o proprietário deixa de arcar com fossa, limpeza e risco sanitário.”

Para parte dos compradores, a presença do serviço não é necessariamente o motivo principal para escolher uma casa, mas sua ausência pode ser decisiva para descartá-la.

“Em geral, o cliente de classe média e de empreendimentos novos prioriza bairros já consolidados com água, esgoto, asfalto, escolas, comércio e transporte. O saneamento funciona como requisito de entrada, não como diferencial de venda: quase ninguém escolhe um imóvel porque tem esgoto, mas muitos descartam um imóvel porque não tem”, finalizou.

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