Quatro horas. Esse é o tempo que uma geladeira pode manter os alimentos em condições seguras após a interrupção da energia elétrica, desde que permaneça fechada. O alerta é da nutricionista Rosemarly Candil, que ressalta o cuidado especial principalmente para carnes, leite, ovos, frios e outros perecíveis. Especialista em Ciência e Tecnologia dos Alimentos, ela explica que quando a falta de energia se prolonga, aparência e cheiro não bastam para indicar se o alimento continua próprio para consumo.
A primeira recomendação para quem enfrenta uma interrupção no fornecimento é evitar abrir a geladeira desnecessariamente. De acordo com Candil, que é presidente da Associação Sul-mato-grossense de Nutricionistas, o equipamento fechado consegue manter a temperatura por mais tempo.
“Se a pessoa mantiver o refrigerador fechado, sem ficar abrindo desnecessariamente, ele pode se manter ali com qualidade, com segurança, até quatro horas”, explica.
Abrir a porta repetidamente, porém, acelera a perda do frio e torna mais difícil garantir esse período de segurança.
Por isso, em Campo Grande, o problema passou da preocupação para o prejuízo depois do temporal de quinta-feira (10). No Bairro Lagoa Dourada, por exemplo, famílias visitadas pela reportagem nesta sexta-feira (11) já contabilizavam alimentos descartados, geladeiras descongelando e dificuldades até para preparar as refeições.
Aparência pode enganar – A nutricionista alerta que o cuidado deve ser maior com os alimentos perecíveis, especialmente os ricos em proteínas. Carnes, leite, ovos, frios e embutidos estão entre os produtos de maior risco quando perdem a refrigeração.
Rosemarly esclarece que congelar ou refrigerar não significa eliminar os micro-organismos presentes nos alimentos. A baixa temperatura impede ou reduz sua multiplicação, mas quando o produto começa a descongelar e a temperatura aumenta, esses micro-organismos podem voltar a se proliferar.
A especialista afirma que o perigo nem sempre é perceptível, pois uma carne, por exemplo, pode não apresentar cheiro ruim nem mudança visível e, ainda assim, não estar segura para consumo.
“Às vezes, ela pode estar aparentemente boa, porém alterada, porque o micro-organismo está no ar, está em todos os lugares e a gente não enxerga”, alerta Candil.
Cozinhar não resolve – Para a nutricionista, cozinhar também não é garantia de recuperar um alimento que permaneceu tempo demais em condições inadequadas. Conforme a especialista, o calor pode eliminar micro-organismos, mas determinadas toxinas produzidas durante sua proliferação podem permanecer no alimento.
“Ela cozinha a carne, mata o micro-organismo que está lá, mas a toxina fica”, explica.
Para alimentos perecíveis que já estão em temperatura ambiente, Candil aponta limite de duas horas. Por isso, quando a interrupção de energia se estende por cerca de 24 horas, ela não recomenda consumir os produtos perecíveis que dependiam da refrigeração.
Frutas e verduras apresentam risco menor. Podem perder firmeza, textura e qualidade, mas, segundo a especialista, a preocupação é menor do que com carnes, leite, ovos, frios e embutidos.
Comida no lixo – O que a nutricionista descreve já acontece no bairro Lagoa Dourada. A professora de arte Yasmim Ramos Fenianos, 24 anos, está sem energia desde às 17h de quinta-feira. Nesta sexta, começou a descartar o que estava na geladeira.
“Eu tive que jogar queijo fora, umas frutas, morango já ficou passado. E o meu feijão azedou. Já estava temperado, eu coloquei embaixo para descongelar e ele já ficou esquisito, tive que jogar fora de manhã”, relata.
Na casa de Josemar dos Santos Nascimento, de 40 anos, a preocupação estava no congelador cheio. Sem energia desde o dia anterior, ele aguardava o restabelecimento do serviço enquanto os alimentos começavam a descongelar.
Sem energia elétrica, potes de alimentos derretem no congelador de geladeira (Foto: Natália Olliver)
Velas e celular descarregado – Na casa de Elinda Santos Bittencourt, a preocupação vai além dos alimentos. Com crianças pequenas na família, ela relata dificuldades para preparar e aquecer comida e afirma que um medicamento biológico utilizado pela filha também estragou durante o período sem refrigeração.
“Está muito ruim, porque a gente tem criança pequena, a gente está perdendo as coisas, já perdeu um bocado na geladeira. Minha menina toma biológico e já estragou o remédio”, conta.
Elinda diz que já gastou vários pacotes de velas e ficou sem bateria no celular. “Meu celular já descarregou, não tem mais nada carregado aqui nessa casa. Não tem micro-ondas para esquentar uma comida para dar para as crianças, para fazer as coisas, não tem nada.”
O que fazer com os alimentos quando estiver sem energia:
Mantenha a geladeira fechada. Assim, os alimentos podem permanecer seguros por até 4 horas.
Redobre o cuidado com carnes, leite, ovos, frios e embutidos.
Perecíveis em temperatura ambiente por mais de 2 horas não devem ser consumidos.
Não confie no cheiro ou na aparência para avaliar se o alimento está seguro.
Cozinhar não elimina todos os riscos, pois algumas toxinas podem permanecer.
Frutas e verduras têm risco menor, embora possam perder qualidade.
Fonte: Campo Grande news
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